segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Do homem e da natureza



Das minhas mãos
Todas as coisas
Invento o mundo
Refaço a natureza
Do átomo
À bomba
Do ferro
À arma
Do sol,
Carcinoma
Do homem
À guerra.
Só não refaço corações
Por vezes,
Perco sentimentos
Perco o humano
De mim mesmo
Na arte de dominar
O que não tem domínio.

Natália Abreu

Que mundo?



Ver o mundo daqui
Faz-me querer não ver
Ver o mundo daí
Faz-me querer morrer
Que condição estúpida!
Ver de onde vejo,
E não ver?
Viver o sofrimento,
E morrer?

Natália Abreu,
sobre prisões.

domingo, 24 de outubro de 2010

A inércia da alma




Dia clarinho
Vento fininho
Suspiro
E lá está.
Chuva chovendo
Frio tremendo
Esconderijo
E lá está.
Tempo,
Temporal,
Temporada.
Dia,
Noite,
Madrugada.
Tudo.
Continua lá.
Um talher fora do lugar
Uma planta seca
Um copo sujo
Uma janela aberta
Uma cortina velha
Um pobre olhar
Um horizonte
Que com seus trópicos
E meridianos
Lá está.
Vestindo trapos
Sem se pentear.
Está a coisa
Que se assentou
Num resto de sofá.
A coisa que não sai
Que não busca outro lugar.
Que não fala,
Que resmunga
Que vive a lamentar.
Um fungo humano
A escarrar
Suas dores
Sua inércia
Sem sorte,
Sem direção.
Lá está a coisa
Assentada
Sob o passado,
O presente
E o futuro
Perdida no espaço
E no tempo
De angústia e solidão.



Natália Abreu



Mundo de meu Deus



Êita mundo de meu Deus!
Todo mundo em busca de algo
Traçando caminhos
Com destino a...
Em busca do quê?
Alguém sabe dizer?
Competição,
Poder...
Em nome de uma felicidade
Sem razão de ser
Mundo de meu Deus,
De psêudos ateus
E equivocados devotos
Que dirigem seus olhares ao céu
Mas não os dirigem para o lado
Todo irmão é uma ovelha negra
Embrionário de certo passado
Nessa grande família em crise
Não é a ausência do Pátrio!
Estão todos perdidos
Nesse mundo de meu Deus,
Mundo de homens estrábicos.


Natália Abreu

Criança, criação





Eu vi uma criança
Admirada com a lua
Queria pegá-la
Com a palma da mão
Eu vi uma criança
Chorosa
Queria colo
E não entendia que “não”
Olhos vivos, arregalados
Olham em qualquer direção
Criança sapeca,
Esperta, moleca
De pés descalços no chão
O colo do adulto, astuto,
É o apoio
Para alcançar a lua com a mão
Desejo de criança é assim,
Que nem bola de sabão
Assopra, faz borbolhas,
Vão flutuar na imaginação
Eu vi essa criança
Não tem cor, nem estatura
Nem cheiro, nem dimensão
Vi cativa,
Lúgubre solidão
Criança perdida
Num corpo qualquer
Menino, menina.
Homem, mulher
Numa bolha de sabão
Alcanço o céu,
Toco a lua com a mão
Vi dentro de mim a criança
Que ansiava por criação.



Natália Abreu

Pijama




Hoje não vou tirar o pijama
Ele será para mim segunda pele, rosada
Dormindo comigo, sonha meu sonho
Aconchega-me na madrugada

Leva em si o meu cheiro
Suor, se pesadelo fosse
Se sonho contigo à noite
Perfume que exala das flores

Chama-me para deitar, o pijama
Despede-se da lua, ninando ao luar
Envolve-me com um abraço de leve
Meu corpo se põe a afagar

Extensão da minha intimidade
Hoje a quero latente, não vou me trocar
Se o meu pijama vida tivesse,
Seria eu a pijamear.


Natália Abreu

Soneto do amor perdido





Ninguém te viu entrar
Campo minado de solidão
Veio sem pedir licença
A este desatento coração

Quando enfim noto sua presença
Lá estás adormecido
Por um momento me recordo
De ter, há tempo, te esquecido

Teu sono parece infindo
Pois me buscou intensamente
Ao encontro te sinto frio, talvez agora, descontente

Tentei despertar-te, embora, tardiamente
Vais agora buscar abrigo
Em coração de outra gente



Natália Abreu