“Sonhar não custa nada”, já dizia o poeta num enredo de samba. E há tempos eu, na contramão do enredo, tento calcular, inevitavelmente, o custo do sonho, afinal, ninguém quer apenas sonhar, e ponto. Quando criança, nos meus dias mais entediados, brotavam sonhos na minha imaginação: cabeleireira, quando desastrosamente ensaiava cortes nos meus próprios cabelos; professora, quando replicava a matéria favorita da escola; outra hora eu era cantora, quando no chuveiro, o som da água se juntava ao da minha voz desafinada; fui também pediatra, quando meus olhos se animavam diante de bebês adoráveis. Sim, posso afirmar que os sonhos compõem as diferentes infâncias por aí. Mas algo inquieta meu coração, sempre que toca o samba-enredo. Timidamente recolho o passo da dança e me pego a pensar: apesar de "não custar nada”, teriam os sonhos, cor? Gênero? Endereço? E passo a compreender o ato de sonhar para além da fantasia, numa perspectiva democrática, política e até revolucionária. Uma forma de escancarar ao mundo que, entre sonhos e enredos de samba, pode haver gigantescos carros alegóricos ou meia dúzia de tantans e tamborins. Quando a ingenuidade da infância é levada pelo tempo, permanecer sonhando é também ato de resistência. Os sonhos vão se transformando naquilo que eu acredito ser possível, naquilo que pode ou não ser acessível pra mim, pro meu mundo. É o peso da realidade que chega e abaixa o volume da música, como quem dita o que pode e o que não pode. E nesse carnaval eu admiro cada vez mais quem segue sambando incansavelmente, ousando sonhar, reescrevendo enredos que ecoarão na avenida.
Natália Abreu
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