Tudo preparado. Comprei os ingredientes que faltavam para fazer a sobremesa que há tempos guardo a receita na gaveta da cozinha. As crianças têm me cobrado fazê-la e eu, na pressa de ser mil que ando, nunca faço. Também não sou boa nessas coisas. Confesso que se mais paixão tivesse, esse doce já seria o prato predileto da família. Retiro tudo da sacola. Empolgada que estou! Abro a gaveta na ânsia de conferir logo se não deixei nada para trás. Talvez esteja na gaveta de baixo, ao que vejo: não está lá também.
Perdi a receita.
Corro o olho nas crianças. Sim, estão confiantes de que vai dar certo. Respiro fundo e então sigo, num movimento desacelerado agora, tentando buscar na memória qual seria a mistura lógica capaz de transformar todos aqueles ingredientes num doce apetitoso. Vamos lá... você primeiro... depois você... Meu pensamento parecia dialogar com cada item, como quem monta um quebra-cabeças dialoga com as peças. Confesso que me vi perdida. Comecei a calcular mentalmente cada quantidade a colocar ali naquela tigela: nem muito mole, nem muito duro. Nem muito doce, mas que não fique sem gosto. O chocolate não quero que amargue. E a textura quero bem lisinha... Vou acrescentar nozes, não me lembro de ter na receita, mas aqui em casa tem nosso apreço. Agora sim, já pode ir para a geladeira. Hora de provar a benfeitoria! Ou será que não devo chamar assim? As crianças lamberam os beiços e eu, não fiquei para trás, até os dedos lambi. Acertei a mão, pensei, sentindo orgulho de mim. Uma brisa leve entrou pela janela da cozinha e vi apontar por debaixo do armário, adivinhem! Ela mesma. Naquele dia aprendi muito além de doces e sobremesas. Desde então não sigo mais receitas.
Natália Abreu
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