domingo, 15 de março de 2026

À espera dos patos

 



Noêmia é minha gata. Ranzinza, como os gatos são. Às vezes me concede sua companhia, mais quando é de seu interesse do que do meu, geniosa. Estava, esses dias comigo, na varanda de casa. Nós, amontoadas numa cadeira larga de balanço e agasalhadas como duas velhas hipotérmicas, à espera do sol em nossos pés. Era uma manhã fria, num final de outono, que mais parecia alto inverno. O céu limpo, atravessado de uma luz branca que deixava o azul ainda mais bonito. Me servi de chá de maçã - gosto do cheiro, com um pouco de canela… receita de afeto da minha avó. Coloquei numa xícara pesada e grossa, na esperança de mantê-lo quentinho por mais tempo. Pintada à mão, era a minha favorita. Sempre que a usava, envolvia em minhas mãos, chegando bem perto dos olhos, me devagava ao tentar decifrar aquela pintura, semi apagada. Aos poucos a fumaça do chá ia sumindo, fininha no apressar de esfriar que estava. De ruído mesmo só o ranger da cadeira balançando e o roncar de Noêmia, num sono profundo como quem não dormia por dias. Às vezes é preciso cutucá-la, como quem chama o outro, alertando pra vida. Noêmia tem mania de achar que é gente, ou sou eu quem faço esse juízo dela?

Avisto de longe uma senhora com sacolas nas mãos, parecendo chegar do mercado. Penso se não é desperdício tanta coisa para quem vive sozinho… quem sabe ela não tenha na vida uma “Noêmia” para chamar de sua? Vai saber. Nunca reparei. Ano passado, nessa mesma época, os patos passavam por aqui, migrando em busca de lugares mais quentes. Descubro a face do meu relógio, coberta por minha blusa de lã e dou uma leve sacudida. É antigo, às vezes suspeito que ele não funciona bem. A essa hora já deviam ter passado. Teço um comentário com Noêmia, entonado de frustração, como se ela os esperasse com a mesma ânsia que eu sentia. É… esse ano ainda não vieram. Noêmia não esboçou nenhuma reação. Ela não gosta de patos, mas quando passavam, os reparava, como eu. Achava bonito. Se olhasse bem veria, não eram todos iguais. Nem na cor, nem no tamanho. Nem mesmo no bater das asas. Mas estavam juntos. Eram guiados com destreza. Eles pareciam me ver também. Não à Noêmia, encolhida entre minhas pernas. Quase me convidavam a partir com eles. E eu sentia aquela passagem como quem se despedia. Lembro que fiquei ali, assoprando o chá, já frio, antes de levar a xícara à boca. No ranger da cadeira (que já rangia) e no ajustar do agasalho que deixava escapar um vento frio nos meus punhos. Pensava como os patos podiam voar tão longe? E numa prece silenciosa eu pedia para que eles voltassem no verão.


Natália Abreu



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