sábado, 14 de março de 2026

A receita



Tudo preparado. Comprei os ingredientes que faltavam para fazer a sobremesa que há tempos guardo a receita na gaveta da cozinha. As crianças têm me cobrado fazê-la e eu, na pressa de ser mil que ando, nunca faço. Também não sou boa nessas coisas. Confesso que se mais paixão tivesse, esse doce já seria o prato predileto da família. Retiro tudo da sacola. Empolgada que estou! Abro a gaveta na ânsia de conferir logo se não deixei nada para trás. Talvez esteja na gaveta de baixo, ao que vejo: não está lá também. 

Perdi a receita. 

Corro o olho nas crianças. Sim, estão confiantes de que vai dar certo. Respiro fundo e então sigo, num movimento desacelerado agora, tentando buscar na memória qual seria a mistura lógica capaz de transformar todos aqueles ingredientes num doce apetitoso. Vamos lá... você primeiro... depois você... Meu pensamento parecia dialogar com cada item, como quem monta um quebra-cabeças dialoga com as peças. Confesso que me vi perdida. Comecei a calcular mentalmente cada quantidade a colocar ali naquela tigela: nem muito mole, nem muito duro. Nem muito doce, mas que não fique sem gosto. O chocolate não quero que amargue. E a textura quero bem lisinha... Vou acrescentar nozes, não me lembro de ter na receita, mas aqui em casa tem nosso apreço. Agora sim, já pode ir para a geladeira. Hora de provar a benfeitoria! Ou será que não devo chamar assim? As crianças lamberam os beiços e eu, não fiquei para trás, até os dedos lambi. Acertei a mão, pensei, sentindo orgulho de mim. Uma brisa leve entrou pela janela da cozinha e vi apontar por debaixo do armário, adivinhem! Ela mesma. Naquele dia aprendi muito além de doces e sobremesas. Desde então não sigo mais receitas.


Natália Abreu

sábado, 6 de setembro de 2025

Ser finito

É preciso encarar a vida

Antes, nua e crua 

Como ela é 

Compreender que a finitude

É uma senhora misteriosa

E nos aceitar vulneráveis, até!

Não é sobre quem reza mais ou menos 

É estar suscetível aos intempéries que nos cercam

Não há amuletos

Não há quem seja ”o escolhido” 

Nem há lição que se aprenda

Com um acaso, sequer

Há um lidar com tudo o que chega

Como chega 

E como vai,

se vai.

Se for, há quem vá junto 

E há quem fique para contar

Que o segredo da vida bruta 

está em não fechar os olhos

Antes da luz se apagar




Natália Abreu


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Mantra




Acalme-se, menina.

É só a vida aconte[sendo]...

                    acon[tecendo]...



Nabreu

Pureza




Em alguns lugares me deixo inteira

Noutros, me vou depressa


É que tenho sede de ser presença


Num olhar, numa conversa


Fica parte de mim


Onde meu coração encontra verdade


Ali permaneço viva


Pulsando com intensidade


Me sinto despida


Pra ser quem sou de verdade


Sem podas e críticas tolas


Que esbanjam vaidade


Que meus dias me permitam ser

Que eu encontre quem quer ser encontrado

Que eu compartilhe com quem queira receber

Que eu ame quem quer ser amado



Natália Abreu

QUARENTAR




Sinto uma agonia inquietante no peito que insiste em medir o tempo com ferramentas que desconheço.

Uma voz insiste em dizer no meu ouvido coisas com tom de quem exige celeridade… numa corrida insana, cujo rumo não fui eu quem traçou. 

Isso me diz que ela vem de um lugar fora de mim, e mais que isso, alheio a mim.

Está tentando tirar o sossego de quem só quer refletir sobre como foi chegar até aqui. De quem não consegue medir nessa régua, o significado desses 40 anos...

Revisitar minha trajetória parece uma boa estratégia para dizer ao senhor cartesiano do tempo que ele está equivocado. 

E quem sabe assim, venha à tona a voz que realmente importa nessa história: a minha.


Natália Abreu

domingo, 21 de julho de 2024

O poeta

Dê-me aqui

Caneta e papel

Me dê a chance 

De dizer sobre isso 

Mas se tem algo que não podes me dar:

É esse olhar

Esse jeito 

Esse viço 

Que sai de dentro do peito 

Na missão de transformar 

Tipo formato de nuvem

Que a subjetividade pode moldar

Assim é o poeta

Assim é o artista

No viver da vida

Capta a cena em verso

Compõe sua poesia.



Natália Abreu

O verso e a vida

Ela pensava que poesia 

Era sobre versar num pedaço de folha

Até perceber que poesia

Era tudo o que se passava

O ritimar da vida

O trágico 

A cena divertida 

O movimento das asas dos pássaros 

O barulho de um pingo d’água 

A gentileza com a senhora na rua

E o invisível na calçada 

As cenas do cotidiano 

São a vida versando

Num ritmo próprio, 

Singular 

Carece de olhar atento

Encantamento 

Para ver na vida

A poesia versar…



Natália Abreu