domingo, 15 de março de 2026

Para o trabalhador



Eu me pego a pensar 

se nessa, de trabalhar

para garantir o sustento do lar

sobra tempo para amar


insisto em perguntar

onde fica o lugar do afeto

quando o sujeito que pulsa

é tido como objeto


será que há espaço

para germinar a semente

quando a terra não recebe

o cuidado dessa gente?


no ofício de cuidar

há ainda uma relação diferente

é desumano reproduzir cuidado

quando desamparado e descontente


o valor do trabalho, afinal

é difícil de mensurar

não é apenas monetário

não é sobre quantificar


uma vida inteira entrelaçada

nas relações do trabalho

elas podem ser firmes e sólidas

ou podem ser frágeis fialhos


podem adoecer a alma

podem curar feridas

o cuidado com as relações de trabalho

é um marco que se leva na vida


logo, há gestos que comunicam

gratidão ou indiferença

que acalentam ou revoltam

que trazem esperança ou descrença


E na tentativa de desatar nós

há um desafio, o de construir laços

feliz daquele que encontra mãos pelo caminho

que encoraja, sutilmente, o primeiro passo


Natália Abreu


À espera dos patos

 



Noêmia é minha gata. Ranzinza, como os gatos são. Às vezes me concede sua companhia, mais quando é de seu interesse do que do meu, geniosa. Estava, esses dias comigo, na varanda de casa. Nós, amontoadas numa cadeira larga de balanço e agasalhadas como duas velhas hipotérmicas, à espera do sol em nossos pés. Era uma manhã fria, num final de outono, que mais parecia alto inverno. O céu limpo, atravessado de uma luz branca que deixava o azul ainda mais bonito. Me servi de chá de maçã - gosto do cheiro, com um pouco de canela… receita de afeto da minha avó. Coloquei numa xícara pesada e grossa, na esperança de mantê-lo quentinho por mais tempo. Pintada à mão, era a minha favorita. Sempre que a usava, envolvia em minhas mãos, chegando bem perto dos olhos, me devagava ao tentar decifrar aquela pintura, semi apagada. Aos poucos a fumaça do chá ia sumindo, fininha no apressar de esfriar que estava. De ruído mesmo só o ranger da cadeira balançando e o roncar de Noêmia, num sono profundo como quem não dormia por dias. Às vezes é preciso cutucá-la, como quem chama o outro, alertando pra vida. Noêmia tem mania de achar que é gente, ou sou eu quem faço esse juízo dela?

Avisto de longe uma senhora com sacolas nas mãos, parecendo chegar do mercado. Penso se não é desperdício tanta coisa para quem vive sozinho… quem sabe ela não tenha na vida uma “Noêmia” para chamar de sua? Vai saber. Nunca reparei. Ano passado, nessa mesma época, os patos passavam por aqui, migrando em busca de lugares mais quentes. Descubro a face do meu relógio, coberta por minha blusa de lã e dou uma leve sacudida. É antigo, às vezes suspeito que ele não funciona bem. A essa hora já deviam ter passado. Teço um comentário com Noêmia, entonado de frustração, como se ela os esperasse com a mesma ânsia que eu sentia. É… esse ano ainda não vieram. Noêmia não esboçou nenhuma reação. Ela não gosta de patos, mas quando passavam, os reparava, como eu. Achava bonito. Se olhasse bem veria, não eram todos iguais. Nem na cor, nem no tamanho. Nem mesmo no bater das asas. Mas estavam juntos. Eram guiados com destreza. Eles pareciam me ver também. Não à Noêmia, encolhida entre minhas pernas. Quase me convidavam a partir com eles. E eu sentia aquela passagem como quem se despedia. Lembro que fiquei ali, assoprando o chá, já frio, antes de levar a xícara à boca. No ranger da cadeira (que já rangia) e no ajustar do agasalho que deixava escapar um vento frio nos meus punhos. Pensava como os patos podiam voar tão longe? E numa prece silenciosa eu pedia para que eles voltassem no verão.


Natália Abreu



Sonhos e enredos de samba



“Sonhar não custa nada”, já dizia o poeta num enredo de samba. E há tempos eu, na contramão do enredo, tento calcular, inevitavelmente, o custo do sonho, afinal, ninguém quer apenas sonhar, e ponto. Quando criança, nos meus dias mais entediados, brotavam sonhos na minha imaginação: cabeleireira, quando desastrosamente ensaiava cortes nos meus próprios cabelos; professora, quando replicava a matéria favorita da escola; outra hora eu era cantora, quando  no chuveiro, o som da água se juntava ao da minha voz desafinada; fui também pediatra, quando meus olhos se animavam diante de bebês adoráveis. Sim, posso afirmar que os sonhos compõem as diferentes infâncias por aí. Mas algo inquieta meu coração, sempre que toca o samba-enredo. Timidamente recolho o passo da dança e me pego a pensar: apesar de "não custar nada”, teriam os sonhos, cor? Gênero? Endereço? E passo a compreender o ato de sonhar para além da fantasia, numa perspectiva democrática, política e até revolucionária. Uma forma de escancarar ao mundo que, entre sonhos e enredos de samba, pode haver gigantescos carros alegóricos ou meia dúzia de tantans e tamborins. Quando a ingenuidade da infância é levada pelo tempo, permanecer sonhando é também ato de resistência. Os sonhos vão se transformando naquilo que eu acredito ser possível, naquilo que pode ou não ser acessível pra mim, pro meu mundo. É o peso da realidade que chega e abaixa o volume da música, como quem dita o que pode e o que não pode. E nesse carnaval eu admiro cada vez mais quem segue sambando incansavelmente, ousando sonhar, reescrevendo enredos que ecoarão na avenida.



Natália Abreu


sábado, 14 de março de 2026

A receita



Tudo preparado. Comprei os ingredientes que faltavam para fazer a sobremesa que há tempos guardo a receita na gaveta da cozinha. As crianças têm me cobrado fazê-la e eu, na pressa de ser mil que ando, nunca faço. Também não sou boa nessas coisas. Confesso que se mais paixão tivesse, esse doce já seria o prato predileto da família. Retiro tudo da sacola. Empolgada que estou! Abro a gaveta na ânsia de conferir logo se não deixei nada para trás. Talvez esteja na gaveta de baixo, ao que vejo: não está lá também. 

Perdi a receita. 

Corro o olho nas crianças. Sim, estão confiantes de que vai dar certo. Respiro fundo e então sigo, num movimento desacelerado agora, tentando buscar na memória qual seria a mistura lógica capaz de transformar todos aqueles ingredientes num doce apetitoso. Vamos lá... você primeiro... depois você... Meu pensamento parecia dialogar com cada item, como quem monta um quebra-cabeças dialoga com as peças. Confesso que me vi perdida. Comecei a calcular mentalmente cada quantidade a colocar ali naquela tigela: nem muito mole, nem muito duro. Nem muito doce, mas que não fique sem gosto. O chocolate não quero que amargue. E a textura quero bem lisinha... Vou acrescentar nozes, não me lembro de ter na receita, mas aqui em casa tem nosso apreço. Agora sim, já pode ir para a geladeira. Hora de provar a benfeitoria! Ou será que não devo chamar assim? As crianças lamberam os beiços e eu, não fiquei para trás, até os dedos lambi. Acertei a mão, pensei, sentindo orgulho de mim. Uma brisa leve entrou pela janela da cozinha e vi apontar por debaixo do armário, adivinhem! Ela mesma. Naquele dia aprendi muito além de doces e sobremesas. Desde então não sigo mais receitas.


Natália Abreu