Eu me pego a pensar
se nessa, de trabalhar
para garantir o sustento do lar
sobra tempo para amar
insisto em perguntar
onde fica o lugar do afeto
quando o sujeito que pulsa
é tido como objeto
será que há espaço
para germinar a semente
quando a terra não recebe
o cuidado dessa gente?
no ofício de cuidar
há ainda uma relação diferente
é desumano reproduzir cuidado
quando desamparado e descontente
o valor do trabalho, afinal
é difícil de mensurar
não é apenas monetário
não é sobre quantificar
uma vida inteira entrelaçada
nas relações do trabalho
elas podem ser firmes e sólidas
ou podem ser frágeis fialhos
podem adoecer a alma
podem curar feridas
o cuidado com as relações de trabalho
é um marco que se leva na vida
logo, há gestos que comunicam
gratidão ou indiferença
que acalentam ou revoltam
que trazem esperança ou descrença
E na tentativa de desatar nós
há um desafio, o de construir laços
feliz daquele que encontra mãos pelo caminho
que encoraja, sutilmente, o primeiro passo
Natália Abreu